7 de março de 2019

Como lidar com a compulsão alimentar infantil?

É normal que os pais estejam atentos à alimentação dos seus filhos. Porém, quando seus filhos “comem bem”, dificilmente os pais se preocupam e pensam que algo possa estar “fugindo do controle”, afinal, são as crianças que “não comem nada” que lideram o ranking das preocupações, não é mesmo? Exatamente por isto, os responsáveis podem […]

É normal que os pais estejam atentos à alimentação dos seus filhos. Porém, quando seus filhos “comem bem”, dificilmente os pais se preocupam e pensam que algo possa estar “fugindo do controle”, afinal, são as crianças que “não comem nada” que lideram o ranking das preocupações, não é mesmo?

Exatamente por isto, os responsáveis podem demorar certo tempo até desconfiarem que a criança apresenta compulsão alimentar infantil.

Em crianças autistas, o transtorno alimentar mais comum é a seletividade alimentar, mas muitos também apresentam compulsão alimentar relacionada a questões de ansiedade e sensoriais e, por vezes, como efeito colateral de algumas medicações.

Há uma linha tênue entre o “comer bastante” e a compulsão alimentar, que é caracterizada como um transtorno. O primeiro geralmente pode ser administrado com mudanças de hábitos dentro da própria dinâmica familiar; já a compulsão, é uma doença que deve ser tratada com acompanhamento multidisciplinar (geralmente envolvendo médico, nutricionista e psicólogo).

Na compulsão alimentar, a criança ou adolescente, sente necessidade de comer mesmo sem estar com fome. Comer compulsivamente está relacionado à perda de controle.

Como perceber que o “comer demais” é uma compulsão?

Comer de forma descontrolada até “passar mal”; procurar por alimento o dia inteiro; colocar comida em excesso no prato; não mastigar os alimentos direito e já partir para a segunda colherada/garfada; esconder ou guardar alimentos para comer escondido, por exemplo, de madrugada; comer normalmente perto de outras pessoas e compulsivamente sozinho; responder com agressividade quando alguém lhe nega algum alimento; perceber que durante ou depois de comer, seu(ua) filho(a) se sente com raiva ou angustiado, são alguns dos sinais que merecem atenção!

São diversos os fatores que podem estar envolvidos na compulsão alimentar infantil. A criança pode, por exemplo, estar tentando suprir alguma necessidade emocional através da comida, ainda que de forma inconsciente; ter sido submetida a alguma dieta restritiva previamente; ter problemas com autoestima e imagem corporal.

O comer significa se dar um prazer momentâneo… Mas, é seguido de culpa, e isto, pode gerar um ciclo vicioso.

Porém, há casos e casos, e somente um profissional poderá investigar e diagnosticar o quadro para poder indicar a melhor forma de tratamento.

Os transtornos alimentares, de uma forma geral, apresentam os seus primeiros sinais na infância e na adolescência e, se não forem tratados, podem ocasionar sérios danos à saúde e desenvolvimento psicossocial.

De qualquer forma, os pais não devem se sentir culpados diante da situação, porém, podem trabalhar com alguns hábitos no sentido de ajudar a criança a construir uma relação mais saudável com a comida. Algumas orientações neste sentido são:

– Crianças precisam de rotina e, como estão em fase de crescimento, precisam estar bem alimentadas. Por isso, ofereça em casa as refeições principais respeitando horários.

– O dia a dia dos adultos geralmente não é fácil, mas é válido que os pais façam pelo menos uma das refeições diárias com seus filhos, isto reforça laços e ajuda a tornar o momento de comer mais saudável.

– Tenha em casa bons alimentos. Quanto maior a variedade de alimentos saudáveis/naturais tiver à mesa, menor a chance de a criança desenvolver compulsão por doces e alimentos industrializados.

– Esteja atenta à criança, mas também não “a pressione” ou “a censure”, especialmente em meio à refeição.

– Dieta restritiva para a criança não é o caminho, muito pelo contrário, a proibição pode ser o primeiro passo para a compulsão alimentar infantil.

– A criança está acima do peso? Trabalhe no sentido de reeducá-la a comer, mas não foque na imagem corporal e não fique lembrando o tempo todo que ela precisa emagrecer. Isso pode fazer com que ela tenha vergonha de comer na frente dos adultos e passe a comer escondida.

– Lembre-se que os pais são os primeiros “exemplos” para seus filhos. Então, se os pais não estão felizes com a forma física, devem evitar ficar destacando esse assunto o tempo todo, especialmente nos momentos de refeição. O ideal é que todos consigam comer sem exageros, mas também “sem neuras”.

– Façam atividades físicas em família, isso diminui as chances de obesidade e, também, de compulsão alimentar. Vale andar de bicicleta, fazer caminhadas, ou qualquer outra atividade que seja prazerosa.

– Estimule o diálogo. Sem pressionar, tente conversar com a criança, perguntando por que ela tem exagerado na comida e/ou comido escondida.

– Se estiver fazendo uso de medicações que possam aumentar o apetite ou engordar, conversem com o médico sobre qual seria a conduta mais adequada.

– Terapia comportamental é extremamente importante em crianças com autismo e, também, em crianças neurotípicas.

E, por fim, dica essencial: não hesite em procurar ajuda médica ao notar algum desses sinais. Construir uma relação saudável com a comida, na infância, é importantíssimo!

Tanto no caso de crianças com TEA como de crianças neurotípicas, o tratamento para a compulsão alimentar prevê identificar os aspectos que desencadeiam o problema para, então, traçar estratégias para o tratamento.

Cada caso deverá ser avaliado e tratado levando em conta suas particularidades.

Dra. Deborah Kerches de Mattos Aprilante (@dradeborahkerches), CRM 102717-SP, é neuropediatra, especialista em Transtornos do Espectro Autista, diretora do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil e da Unidade de Pronto Atendimento – Frei Sigrist do Município de Piracicaba. É palestrante sobre Transtornos do Espectro Autista, membro da Sociedade Brasileira de Neuropediatria, da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI), da Academia Brasileira de Neurologia e da Sociedade Brasileira de Cefaleia. É ainda preceptora do Programa de Residência Médica em Pediatria da Prefeitura do Município de Piracicaba com Especialização em Preceptoria pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês. E-mail: deborahkerches@gmail.com