12 de março de 2019

A seletividade alimentar no autismo

A criança que apresenta dificuldades na alimentação, que “não come bem”, é uma preocupação constante dos pais. Sabemos que as crianças necessitam ingerir alimentos saudáveis, com nutrientes adequados para garantir um bom desenvolvimento neuropsicomotor e pôndero- estatural. Cerca de 30% das crianças podem apresentar alguma seletividade alimentar; já entre as crianças com TEA (Transtorno do […]

A criança que apresenta dificuldades na alimentação, que “não come bem”, é uma preocupação constante dos pais. Sabemos que as crianças necessitam ingerir alimentos saudáveis, com nutrientes adequados para garantir um bom desenvolvimento neuropsicomotor e pôndero- estatural.

Cerca de 30% das crianças podem apresentar alguma seletividade alimentar; já entre as crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista), esse número pode chegar a 80%.  Recusa alimentar, repertório alimentar limitado e ingestão alimentar única de alta frequência, estão no contexto da seletividade alimentar.

Uma das principais queixas dos pais com filhos autistas é a alimentação. A preocupação se dá por questões nutricionais e também por questões emocionais. O momento das refeições deixa de ser algo prazeroso.

Pessoas com TEA apresentam, em sua maioria, alterações sensoriais.

O “comer” é uma das maiores experiências sensoriais!

A hipersensibilidade sensorial ou defensiva sensorial ou super responsividade sensorial, é uma reação exagerada, com conotação negativa a experiências como : texturas, gostos, cheiros, cores, temperaturas. Esta experiência negativa costuma levar à aversão a determinados alimentos.

Distúrbios de comportamento, “crises”, podem ser desencadeados pela hipersensibilidade sensorial aos alimentos ou podem ser causa de recusa alimentar.

Além da hipersensibilidade sensorial, pessoas com autismo apresentam inflexibilidade e dificuldade com mudanças de rotina, o que também pode contribuir para a seletividade alimentar. Ex, comer algo diferente pode ser desconfortável simplesmente por “fugir” à rotina.

Problemas gastrointestinais são frequentes em crianças com autismo, destacando – se as alergias alimentares, dor abdominal recorrente e constipação intestinal, que podem causar grande desconforto abdominal, gerando recusa alimentar.

Algumas estereotipias, rituais, podem fazer do momento da refeição algo moroso, cansativo e a pessoa simplesmente desiste de comer.

Alguns atrasos de habilidades motoras, como distúrbios de mastigação – deglutição , também podem contribuir para a seletividade alimentar.

Como podem observar, a seletividade alimentar é multifatorial tendo inclusive fatores orgânicos , passíveis de tratamentos, como os transtornos gastrointestinais e alergias alimentares.

O primeiro passo é procurar um profissional, se informar e também informar ao médico toda a rotina, hábitos, possíveis doenças associadas, terapias e demais abordagens terapêuticas que estão sendo utilizadas, para tentar identificar possíveis estressores e, então , traçar um plano individual para uma abordagem terapêutica mais efetiva.

O tratamento envolve uma equipe multiprofissional – médicos (neuropediatra ou psiquiatra infantil, pediatra, gastro), terapeuta ocupacional (integração sensorial), fonoaudióloga, psicóloga, nutricionista e na base de tudo, pais/responsáveis que são imprescindíveis e peças- chave no tratamento.

Os pais podem começar a trabalhar algumas questões dentro da rotina familiar, no sentido de ajudar a criança a ampliar seu repertório alimentar.

Seguem algumas dicas:

– Respeitem as dificuldades da criança, mas não desistam!

– Usem estratégias para introduzir diferentes alimentos, aos poucos. Por exemplo, cortem em pedaços bem pequenos e coloquem em meio a alguma comida que seu filho já coma e goste. Façam a opção por cores de alimentos que não se destaquem tanto em relação à comida, para que esta introdução ocorra da forma mais natural possível. Se a criança perceber, troque o alimento, pique em pedaços ainda menores…

– Tenham em casa uma rotina estruturada para as refeições e sobretudo apresentem nelas uma grande variedade de alimentos.

– Procurem, sempre que possível, realizar as refeições em família, para que o momento torne-se agradável e a criança possa ter em quem “se espelhar”.

– Deem o exemplo: se alimentem na frente da criança de forma prazerosa, demonstrem interesse e apreço pelos mais variados tipos de alimentos.
Isto provavelmente a motivará a experimentar o que as outras pessoas estão comendo.

– Integrem, sempre que possível, a criança nos preparativos para a hora da refeição.

– Evitem servir para a criança “lanches fora de hora”, para que ela não perca o apetite na hora das refeições.

– Não forcem a criança a comer determinado alimento, mas sempre ofereçam (ainda que desconfiem que ela vai recusar).

– Tragam o lúdico para as refeições: que tal fazer bolinhos em formatos atrativos ou cortar frutas de forma divertida?! Trazer o objeto de apego da criança, se houver, para este momento na cozinha?

– Nos momentos de brincar, também vale a pena falar e fazer brincadeiras que envolvam a alimentação (alimentar bonecas, bichos de pelúcia, dinossauros,etc.).

– Convidem a criança a escolher o prato e o copo de sua preferência para a refeição, isso costuma trazer maior interesse para este momento.

– Comemorem muito sempre que a criança experimentar um novo alimento e
continuem oferecendo.

Não costuma ser um processo fácil, porém o sucesso é totalmente possível, através do empenho dos responsáveis e da transformação de hábitos familiares associados a um tratamento multiprofissional em que todos estejam engajados e comprometidos com esta criança.

E lembrem-se sempre de que o amor é a base de todo e qualquer tratamento.

Dra. Deborah Kerches de Mattos Aprilante (@dradeborahkerches), CRM 102717-SP, é neuropediatra, especialista em Transtornos do Espectro Autista, diretora do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil e da Unidade de Pronto Atendimento – Frei Sigrist do Município de Piracicaba. É palestrante sobre Transtornos do Espectro Autista, membro da Sociedade Brasileira de Neuropediatria, da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI), da Academia Brasileira de Neurologia e da Sociedade Brasileira de Cefaleia. É ainda preceptora do Programa de Residência Médica em Pediatria da Prefeitura do Município de Piracicaba com Especialização em Preceptoria pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês. E-mail: deborahkerches@gmail.com