31 de maio de 2019

Cefaleia em crianças e adolescentes

O dia 2 de junho é marcado como o Dia Nacional de Combate à Cefaleia. Aproveito a oportunidade para falar sobre esta que é uma queixa comum entre a população em geral, mas, sobretudo, muito presente entre as crianças e adolescentes. As cefaleias nesta faixa etária, se não abordadas e reconhecidas precocemente, podem causar prejuízos […]

O dia 2 de junho é marcado como o Dia Nacional de Combate à Cefaleia. Aproveito a oportunidade para falar sobre esta que é uma queixa comum entre a população em geral, mas, sobretudo, muito presente entre as crianças e adolescentes.

As cefaleias nesta faixa etária, se não abordadas e reconhecidas precocemente, podem causar prejuízos no rendimento escolar, desenvolvimento psicológico e comportamental e interação social.

A cefaleia atinge em torno de 80% da população entre 10 a 18 anos. Entre as crianças menores, a prevalência é mais baixa, mas ainda assim merece atenção. A patologia é mais comum entre os meninos até a puberdade e, depois disso, nas meninas, principalmente devido à influência hormonal.

Atualmente o tempo excessivo frente a aparelhos eletrônicos tem aumentado a frequência e intensidade das crises de cefaleia.

Avaliação da criança com cefaleia

É importante considerarmos todos os aspectos sociais, familiares, ambientais, nutricionais e a imaturidade neurobiológica e psicológica quando avaliamos a queixa cefaleia na infância e adolescência.

O diagnóstico e classificação corretos  irão depender das informações recebidas, exame físico e exames complementares quando necessário.

As crianças menores podem ter alguma dificuldade para expressar claramente sobre seus sintomas, mas costumam manifestar alguns sinais indiretos que permitem classificar o quadro como quando deixam de brincar, pedem para ficar deitadas preferencialmente num quarto escuro, apresentam náuseas e vômitos, colocam a mão na cabeça e choram, entre outros.

Crianças maiores e adolescentes conseguem relatar melhor sobre sua dor e outros sintomas associados.

Os pais podem e devem fornecer informações adicionais e relevantes não só sobre a cefaleia em si, mas também sobre outros aspectos como comorbidades com outras patologias, uso de medicações, questões emocionais.

Importante questionar sobre a duração dos episódios de dor, localização, horário preferencial, fatores desencadeantes (alimentos, jejum, esforço físico, alterações do ciclo sono/vigília) e tipo da dor (pulsátil, dor em pressão ou em facada). A intensidade da dor é um dado fundamental para sua classificação e pode ser observada através do comportamento da criança, quando ela não puder ou conseguir relatar.

Classificamos em leve quando a criança continua brincando; moderada quando mantém suas atividades mas reclama; e forte, quando deixa suas atividade, necessita deitar e por vezes apresenta vômitos. Escalas visuais podem ser utilizadas para avaliação da intensidade da dor, mas somente a partir dos dois anos de idade.

Um diário/registro dos episódios de dores costuma ser eficaz na identificação de possíveis desencadeantes.

Aura (complexo de sinais ou sintomas neurológicos focais, completamente reversíveis, que ocorrem entre 5 e 20 minutos antes dos episódios de cefaleia e duram menos de 60 minutos- como vertigem, parestesia, sintomas visuais, déficits motores) pode ser menos frequente nesta faixa etária, mas não menos importantes. É de importância saber que pode existir aura sem cefaleia.

Vale destacar que as crianças e os adolescentes podem ter os mesmos tipos de dores de cabeça que os adultos, mas a sintomatologia costuma ser diferente: na enxaqueca, por exemplo, a criança não costuma apresentar hemicrania (dor unilateral), a dor pode não ser pulsátil etc. Já a questão de náuseas e vômitos, é bem comum tanto entre crianças como adultos. A criança pode ainda evoluir com dores abdominais e vertigens como sintoma da cefaleia.

As cefaleias podem ser primárias ou secundárias. As primárias são aquelas que não apresentam etiologia definida; já as secundárias, são provenientes de patologias orgânicas específicas, de origem intracraniana ou de doenças sistêmicas, como, por exemplo, meningites, sinusites, febre, tumores cerebrais, acidentes vasculares cerebrais.

As cefaleias primárias e crônicas desta faixa etária mais frequentes são a enxaqueca (migrânea) e a cefaleia tensional.

A maioria das cefaleias na infância e adolescência são benignas.

Os pais devem ficar atentos a dores de cabeça intensas que não respondem mais às medicações habituais; que aumentam de frequência ou mudam de padrão; que despertam a criança durante o sono; dores que vêm acompanhadas de vômitos matinais; dores de cabeça acompanhadas de febre, rigidez de nuca e/ou febre; dores associadas a desmaios ou esforços físicos.

Devem ainda estar atentos a dores de cabeça acompanhadas de alteração de comportamento e personalidade (por exemplo, quando a criança se afasta dos amigos porque não quer mais brincar, quando começa a apresentar dificuldades em ir para a escola, quer ficar somente deitado no quarto etc.).

Dores de cabeça após traumatismo craniano também merecem atenção e devem ser investigadas, assim como cefaleia no caso de crianças e adolescentes com epilepsia.

Quando as dores são frequentes, os pais devem buscar ajuda médica para a criança ou adolescente para que o caso seja corretamente investigado e tratado.

Hábitos de vida mais saudáveis, qualidade de sono e alimentar se fazem necessários para evitar crises de cefaleia.

Os tratamentos profiláticos (preventivos) ficam restritos a cefaleias mais intensas e frequentes.

Após avaliação da história clínica, exame físico e exames complementares, quando necessários; o especialista indicará o melhor tratamento.

Dra. Deborah Kerches de Mattos Aprilante (@dradeborahkerches), CRM 102717-SP, é neuropediatra, especialista em Transtornos do Espectro Autista, diretora do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil de Piracicaba. É palestrante sobre Transtornos do Espectro Autista, membro da Sociedade Brasileira de Neuropediatria, da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI), da Academia Brasileira de Neurologia e da Sociedade Brasileira de Cefaleia. É ainda preceptora do Programa de Residência Médica em Pediatria da Prefeitura do Município de Piracicaba com Especialização em Preceptoria pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês. E-mail: deborahkerches@gmail.com