5 de agosto de 2019

A dificuldade na interpretação de textos

Você já notou que, atualmente, existe uma grande dificuldade com a interpretação de textos (de todos os tipos) entre pessoas de diferentes idades? Tal dificuldade pode ser notada, não só dentro da escola, mas também no dia a dia, nas relações interpessoais, na comunicação que hoje acontece em grande parte através das redes sociais. Convidamos […]

Você já notou que, atualmente, existe uma grande dificuldade com a interpretação de textos (de todos os tipos) entre pessoas de diferentes idades?

Tal dificuldade pode ser notada, não só dentro da escola, mas também no dia a dia, nas relações interpessoais, na comunicação que hoje acontece em grande parte através das redes sociais.

Convidamos a professora Valéria Mello, pedagoga e professora de Língua Portuguesa, atual Coordenadora de Códigos e Linguagens em uma escola de Programa de Ensino Integral, para falar sobre o tema.

1. Notamos, atualmente, uma dificuldade com a interpretação de textos entre pessoas de diferentes idades. Quais são, em sua opinião, os principais motivos para isso?

Valéria: Essa problemática que envolve a interpretação de um texto é muito complexa, por isso desperta o interesse de especialistas em todo mundo. Há no mercado literário uma grande demanda de autores explanando sobre este assunto.

A dificuldade para compreender um texto surge desde as séries iniciais e com os avanços tecnológicos  referentes às imagens, cores e movimentos a tarefa da escola tornou-se mais árdua por conta desses recursos atraentes, e assim, o ambiente escolar passou a não ser mais o único local de conhecimento e isso é muito positivo, pois na interação com as mídias digitais as crianças e adolescentes exploram, experimentam e descobrem o mundo.

No entanto, pesquisas como a do Instituto Neurosaber (Londrina/PR) revelam que o uso prolongado de tablets e smartphones exercem um efeito nocivo no cérebro. Segundo o neurologista infantil Clay Brites, eles “roubam a atenção, enfraquecem a memória, reduzem a capacidade de perceber e corrigir erros e diminuem a produtividade”, existe um guia orientador de pediatras e pais chamado Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital, da Sociedade Brasileira de Pediatria criado por conta de algumas patologias, como insônia, ansiedade e depressão diagnosticadas atualmente em crianças e adolescentes,  com isso constatamos que a eficiência e a competência leitora para a interpretação de um texto não depende apenas da área da  educação.

Me chama a atenção, o fato de nós, os adultos, estarmos diminuindo nossa capacidade de compreensão, esse fenômeno demonstra também, a nossa perda de concentração. Segundo Bakhtin e Volochinov (1999) “as palavras estão carregadas de conteúdo ideológico,” portanto, servem de fio condutor das relações sociais. Sendo assim, o processo de leitura e compreensão engloba a participação ativa e criativa do leitor.

Para Ferreira (2001) “interpretar é saber identificar ideias essenciais e reconhecer as irrelevantes” logo, formamos leitores críticos. Na minha opinião, pecamos pelo excesso de textos oferecidos aos alunos, fazemos leituras rasas em sala de aula pela necessidade de cumprir o Currículo, por isso não exploramos junto ao alunado os múltiplos sentidos de um texto no decorrer dos parágrafos e o aluno não extrai a sua essência, porque não houve uma observação particular.

Paulo Freire afirmava que “ler não é só caminhar sobre as palavras, e também não voar sobre elas, é descobrir a conexão do texto com o seu contexto”.

2. Em sua opinião, o que pode ser feito dentro das escolas para melhorar esse aprendizado?

Diante de novos paradigmas o professor deve reavaliar sua prática pedagógica, essa é uma ação que considero o “pontapé” inicial para amenizarmos esta questão. Mas, compreender é um processo que começa desde o nascimento, através de gestos realizados por pais e cuidadores. E até chegar à escola a criança já percorreu um caminho e a valorização da função da leitura e da apreciação do texto começa dentro dos lares, sendo a família o alicerce desse processo que é gradual. O papel da escola é valorizar o saber que o aluno traz de resultados de sua vivência e partir daí instrumentalizá-lo com a leitura de vários gêneros. Existem várias estratégias para monitorar a compreensão do  aluno, no entanto antes de iniciar qualquer processo o docente deve, antes de tudo, ser um profissional que encante,  isso ocorre se ele for um  leitor assíduo. Para Paulo Freire a interpretação textual está relacionada a competência leitora, sendo assim “o ato de ler requer um conjunto de conhecimentos linguísticos e uma habilidade reflexiva do leitor”.

Segundo Ducke e Pearson (2002), existem seis tipos de estratégias de leitura que ajudam na compreensão dos textos: A primeira é a predição que antecipa e prevê fatos ou conteúdo do texto, utilizando o conhecimento existente para facilitar a compreensão. A segunda é pensar em voz alta, é quando o leitor verbaliza o seu pensamento enquanto lê, a terceira é analisar a estrutura do texto, esse processo requer ajuda do professor, pois trata-se da compreensão e recordação de conteúdo. A quarta é a representação visual do texto formando uma imagem mental do conteúdo, aqui seria a criação de um mapa mental, por exemplo; a quinta seria o resumo que ajuda a selecionar e destacar o importante no texto e, por último, a sexta estratégia seria o questionamento que permite o leitor refletir sobre a leitura. Há vários autores na literatura, os quais destacam outras estratégias muito estimulantes e relevantes no trabalho da docência.

3. Além do ambiente escolar, o que pode ser feito para que crianças e adolescentes possam desenvolver melhor a habilidade para a interpretação de textos? Como os pais podem ajudar?

Nada deve ser imposto, conduza com cuidado para que a criança ou adolescente não perca o prazer pela leitura, é bom ter contato com textos apropriados à idade deles. Os pais precisam identificar o gosto de seus filhos por um determinado gênero, criando afinidades com o processo leitor. Hoje com as inúmeras opções  tecnológicas e as diversas atribuições cotidianas é importante estabelecer um horário para leitura, sem que isso pareça uma punição para eles, mas sim, uma das tarefas do seu dia. Sejam espontâneos ao conversar sobre o que foi lido, conheça, se possível, a obra, ajuda a formular perguntas mais pontuais e verificar se a criança ou o jovem realmente compreendeu o texto. Essas ações são descartadas ao perceberem a maturidade leitora do seu filho ou filha.

Gostaria de finalizar a nossa conversa com uma frase de Mark Twain “O homem que não lê bons livros, não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler”, portanto devemos prezar pela qualidade leitora de nossos filhos, ler muitos livros não garante formar um leitor protagonista da própria história, se ele apenas voou sobre eles.