23 de setembro de 2019

A adolescência e a maturação do cérebro

“São os hormônios da idade”. Geralmente esta é a justificativa que os adultos usam para os comportamentos dos adolescentes. Mas, na verdade, existe apenas um hormônio importante na adolescência, o sexual, e ele sozinho não explica todas as mudanças típicas desta faixa etária. “É fato que os adolescentes têm o cérebro imaturo, visto que ainda […]

“São os hormônios da idade”. Geralmente esta é a justificativa que os adultos usam para os comportamentos dos adolescentes. Mas, na verdade, existe apenas um hormônio importante na adolescência, o sexual, e ele sozinho não explica todas as mudanças típicas desta faixa etária.

“É fato que os adolescentes têm o cérebro imaturo, visto que ainda não são adultos. Em contrapartida, já têm o corpo desenvolvido (parecido com o dos adultos). Isso naturalmente gera em nós, adultos, uma expectativa de maior maturidade – o que, se não nos policiarmos, pode levar a frustrações”, comenta Alessandra Netti, psicóloga e neuropsicóloga.

É essencial que os pais entendam o que se passa nesta fase para que possam compreender melhor o adolescente e, assim, saibam também como agir em relação a dilemas que poderão surgir.

“Antigamente sabíamos pouco sobre o cérebro adolescente, hoje avançamos muito devido às novas tecnologias de imagem e sabemos que a maturação do cérebro humano segue na adolescência, podendo continuar até a fase adulta. Ou seja, nesta fase, estão ocorrendo importantes mudanças no cérebro, com a perda de algumas sinapses (conexão entre os neurônios mediadas por substâncias químicas chamadas de neurotransmissores) e refinamento de outras. Ter ciência disso nos possibilita compreensões importantíssimas sobre os comportamentos da adolescência”, explica Alessandra.

Um estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, por exemplo, mostrou que uma das mudanças mais perceptíveis ocorre na chamada massa cinzenta, a região mais exterior do cérebro. Ela diminui ao longo da adolescência, o que não representa, porém, uma perda de neurônios, mas, sim, de sinapses (conexão entre os neurônios).

“No começo dessa fase, há um grande número de sinapses, mas, quando se inicia a transição para a fase adulta, ocorre uma morte programada de sinapses, o que refina as conexões. Essa perda de algumas sinapses e a consolidação de outras acontecem de acordo com o uso. Ou seja, sinapses usadas com frequência são reforçadas, enquanto outras (não usadas) são perdidas. O que mostra que as opções feitas nessa fase da vida ajudarão a formar o cérebro do adulto”, destaca Alessandra.

Ocorre ainda mudança na chamada massa branca, composta por axônios (parte do neurônio responsável por conduzir os impulsos elétricos de um neurônio para outro ou de um neurônio para uma glândula ou fibra muscula). “Os axônios são cobertos por uma camada de mielina – um isolante que aumenta a velocidade de transmissão do sinal entre as células. Assim, enquanto a massa cinzenta diminui devido ao corte das sinapses, a branca aumenta devido ao aumento na mielina”, explica Alessandra.

Enfim, entre perdas e o refinamento das sinapses, a massa total do cérebro permanece relativamente constante, mas o funcionamento vai se aprimorando devido a mudanças estruturais e químicas.

Interessante saber que o corte das sinapses pode avançar até os 30 anos; e o aumento na massa branca, até os 40. “Saber disso nos ajuda não só a entender melhor o comportamento dos adolescentes, como também leva os adultos a se questionarem sobre a própria maturidade cerebral”, conclui Alessandra.

Conflitos na adolescência

Outro dado importante é que a maturação do cérebro não se dá de maneira homogênea. E a última parte do cérebro a amadurecer, o córtex pré-frontal , é justamente a região onde se processam comportamentos tipicamente de adultos, como capacidade planejamento, concentração, empatia ,inibição de impulsos.

“É então, com o amadurecimento do cérebro, que o adolescente começa a desenvolver comportamentos autorreflexivos, a autorregulação e o raciocínio, o que propicia uma maior consciência crítica sobre si e sobre os outros. Esse processo naturalmente leva o adolescente a ser mais “crítico”, a se questionar e se irritar mais facilmente”, comenta Alessandra.

Como o cérebro ainda se consolidando, as alterações de humor são frequentes, assim como a reatividade (que pode levar a constantes embates com os pais).

“A capacidade de tomar decisões, de julgar, de planejar, de usar as emoções para nortear decisões e a criação de empatia também vão surgindo nesta fase, tudo isso relacionado ao amadurecimento do córtex pré-frontal”, acrescenta a neuropsicóloga.

 A busca por prazer

Interessante saber ainda que os adolescentes possuem um terço dos receptores para dopamina (neurotransmissor que proporciona o prazer). “Por isso, eles precisam de experiências mais intensas, que estimulem mais a liberação da substância, o que explica alguns comportamentos típicos como ouvir música alta, o comportamento de risco, além do grande interesse pelo sexo (a mais nova descoberta)”, destaca Alessandra.

Associado ao comportamento de risco está a influência do meio social. “O adolescente tende a fazer coisas pra impressionar os amigos, além de ir se tornando mais independente dos pais. O encontro de um cérebro em formação com o comportamento de risco (consumo de drogas e álcool, por exemplo) deve ser um dos principais pontos de atenção na adolescência, pois dependências adquiridas nesta fase podem permanecer por toda a vida”, alerta Alessandra.

Aos adultos, fica então a missão de compreender melhor esta fase tão complexa que é a adolescência, não se prendendo às generalizações. Saber que o cérebro adolescente está passando por mudanças importantes/reais ajuda os responsáveis a entenderem “o que é esperado para esta fase”, bem como a nortear ações no sentido de acolher, respeitar e auxiliar o adolescente (que está passando pela transformação até então mais significativa de sua vida).

“Cabe a nós, pais, também nos transformarmos junto com a entrada a adolescência, nos adaptando às novas circunstâncias, às novas formas de nossos filhos se relacionarem conosco. Pois ser pai/mãe é isso, exige transformações com o decorrer do crescimento dos filhos… Ou seja, essa necessidade de entendimento, de transformação não é algo restrito à adolescência, visto que cada fase (primeira infância, segunda infância…) tem suas particularidades. Que saibamos passar por todas essas etapas junto aos nossos filhos tendo como base conhecimento, leveza, companheirismo e muito amor”, finaliza Alessandra.