3 de janeiro de 2020

Meltdown X Shutdown no autismo

Meltdown e Shutdown são eventos que comumente podem ocorrer entre pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Conheça as particularidades de cada um. Meltdown Meltdown é chamado popularmente de colapso mental ou crise e trata-se de um episódio em que há perda temporária do controle emocional e dos impulsos de um indivíduo em reação a […]

Meltdown e Shutdown são eventos que comumente podem ocorrer entre pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Conheça as particularidades de cada um.

Meltdown

Meltdown é chamado popularmente de colapso mental ou crise e trata-se de um episódio em que há perda temporária do controle emocional e dos impulsos de um indivíduo em reação a uma situação estressante, a uma frustração, sobrecarga sensorial, a algo que leve a um “limite extrapolado” e acontece de maneira involuntária. Pode-se caracterizar por choros, gritos, agitação e auto e heteroagressão. Pode ocorrer com qualquer pessoa e em qualquer idade e acaba sendo frequente em pessoas com TEA devido às suas particularidades como alterações sensoriais, inflexibilidade e dificuldades comunicativas.

Meltdown é diferente de birra, que é um comportamento voluntário, uma estratégia para conseguir algo, ou para não fazer algo que não quer. Se cedermos à birra, o comportamento cessa, o que não acontece no meltdown.

É importante identificar, de acordo com as particularidades de cada um, o que pode desencadear este comportamento para que possamos intervir preferencialmente antes e assim evitar sofrimento para todos.

Todos os envolvidos na vida da criança, adolescente, jovem com autismo, devem estar atentos ao comportamento antecessor ao meltdown e aos possíveis desencadeadores e, então, traçarem estratégias para o acompanhamento.

Shutdown

Já Shutdown, é um termo por vezes utilizado para nomear um comportamento reacional a uma sobrecarga emocional e sensorial, a situações estressantes e/ou de ansiedade extrema. Trata-se de um evento reacional que pode acontecer com qualquer indivíduo e em qualquer idade, porém, em pessoas com autismo pode ocorrer mais facilmente devido a alterações sensoriais, comportamentos mais inflexíveis e dificuldades de comunicação (o que as deixam mais vulneráveis para que se desorganizem).
O termo vem da informática e refere-se a um comando capaz de “desligar o sistema”. No shutdown, a pessoa parece estar parcialmente ou completamente desligada/distanciada do momento, não respondendo a qualquer forma de comunicação, com o “olhar vazio”, respiração atípica (mais rápida ou lenta). Pode retirar-se do espaço (indo para seu quarto, por exemplo), deitar-se no chão; pode ainda perder a capacidade de se retirar da situação “limite” em que se encontra, mostrando-se paralisada, entre outras ações.

Nas crianças com autismo, os shutdowns não devem ser confundidos com birras ou encarados como enfrentamento; tratam-se de comportamentos involuntários reacionais e nunca serão utilizados como “tática para se conseguir algo” ou “não fazer algo que não querem”.
No shutdown, diferentemente do meltdown, as emoções ficam internalizadas. As motivações e o “limite” para o shutdown ou meltdown parecem ser os mesmos, o que muda é a forma de expressão comportamental, porém ambas mostram que há uma situação de sofrimento que precisa ser olhada com maior cuidado.

Normalmente nos preocupamos mais com comportamentos externalizantes, então fica o alerta para comportamentos internalizados em pessoas com autismo. Eles também necessitam de avaliação para identificarmos fatores desencadeantes e intervirmos a fim de evitar sofrimento e prejuízos no desenvolvimento dessas pessoas.

Uma vez identificados os fatores desencadeantes, podemos trabalhar em terapias pois nem tudo poderá sempre ser evitado. Questões que desregulam a pessoa com autismo deverão então ser trabalhadas e o apoio dos pais, familiares, amigos, da escola e da equipe multiprofissional é fundamental para o manejo comportamental.

Dra. Deborah Kerches de Mattos Aprilante (@dradeborahkerches), CRM 102717-SP, RQE 23262-1, é neuropediatra, especialista em Transtornos do Espectro Autista, diretora do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil de Piracicaba. É palestrante sobre Transtornos do Espectro Autista, membro da Sociedade Brasileira de Neuropediatria, da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI), da Academia Brasileira de Neurologia e da Sociedade Brasileira de Cefaleia. É ainda preceptora do Programa de Residência Médica em Pediatria da Prefeitura do Município de Piracicaba com Especialização em Preceptoria pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês. E-mail: deborahkerches@gmail.com