18 de maio de 2020

Conhecendo a Dermatoporose

A síndrome da insuficiência cutânea crônica ou dermatoporose é um novo conceito na dermatologia, na qual ocorre um comprometimento da função de barreira da pele, levando, então, ao maior risco de infecções e, contrariando o conceito anterior, em que acreditávamos que o envelhecimento cutâneo causaria somente problemas estéticos. Esse termo, foi criado em analogia à […]

A síndrome da insuficiência cutânea crônica ou dermatoporose é um novo conceito na dermatologia, na qual ocorre um comprometimento da função de barreira da pele, levando, então, ao maior risco de infecções e, contrariando o conceito anterior, em que acreditávamos que o envelhecimento cutâneo causaria somente problemas estéticos. Esse termo, foi criado em analogia à osteoporose, cuja doença, também, se correlaciona com o envelhecimento, e pode evoluir com sérias complicações precisando de medidas preventivas, assim como a dermatoporose.

A dermatoporose tem relação direta com a idade e sua prevalência aumenta com o passar dos anos, chegando a 32% nos pacientes acima de 65 anos, e 52% nos pacientes acima de 85 anos.

O quadro clínico é representado principalmente pela atrofia da pele, que se torna cada vez mais fina, preferencialmente nos locais onde houve maior exposição solar. A púrpura senil, aquelas manchas roxas que aparecem, geralmente nos braços, é outro marcador da doença e surge quando há um mínimo trauma ou mesmo na ausência dele. Isso se deve pelo aumento da permeabilidade vascular e não pela ruptura deles, o que torna importante a prescrição de hidratantes que recomponham a perda da água na pele desses pacientes.

Os fatores de risco para o desencadeamento da doença são:

  • Idade avançada
  • Dano solar crônico
  • Susceptibilidade genética
  • Medicamentos que os pacientes idosos utilizam. Ressaltando  aqui, o uso indiscriminado do corticóide sistêmico e/ou tópico, que pode piorar o quadro da dermatoporese. A pele seca desses pacientes leva a uma coceira intensa e por isso, muitas vezes, eles utilizam os corticóides, de uma maneira indiscriminada, complicando o quadro cutâneo.
  • Pacientes com insuficiência renal crônica tem um risco 5x maior de apresentarem a   dermatoporose, independente do fator idade.

Como tratamento da doença não existe  nenhum padrão ouro do que seria preconizado. Alguns estudos demonstram o aumento da espessura da pele e do colágeno dérmico quando utilizamos os retinóides nestes pacientes. Para aqueles com púrpura senil, a vitamina C teria utilidade, uma vez que foi demonstrado o aumento da elasticidade e da espessura da pele quando ela foi utilizada por algum período. Outra substância estudada é o ácido hialurônico; ele melhoraria a atrofia cutânea dos pacientes com dermatoporose. Porém, isso só foi observado com cremes que continham fragmentos de ácido hialurônico de tamanho médio, não repetindo o mesmo sucesso quando os fragmentos eram de tamanho pequeno ou muito grande.

O tratamento oral é ainda menos estabelecido que o tratamento tópico; e em alguns casos selecionados, pode ser feito terapia de reposição hormonal ou vitamina C, dependendo do quadro clínico.

Como medidas preventivas, devemos lançar mãos de hidratantes que recomponham o manto hidrolipídico, a camada de gordura e água que protege naturalmente a pele, utilizar somente higienizadores suaves, de preferência com a tecnologia syndet (do inglês, synthetic detergent). Os syndets representaram uma evolução nos limpadores cutâneos. Eles exercem uma atividade desengordurante mais suave, apresentando menor quantidade de sabões (até 10%), levando um toque mais macio à pele após o uso. É importante salientar que, com os syndets,  o pH fisiológico da pele é mantido, preservando a função de barreira e não interferindo na síntese de lipídeos como as ceramidas, nem tampouco desbalanceando a flora bacteriana normal da pele.

A população idosa está aumentando no Brasil e estima-se que em 2050 ela vai quase dobrar, passando de 13,1%, para próximo dos 20% da população total brasileira. Diante desse cenário é importante o conhecimento desta doença, que se tornará cada vez mais prevalente no país.

Dra. Raquel Keller @draraquelkeller é graduada em Medicina pela USP, com Residência em Dermatologia no Hospital das Clínicas da FMUSP e estágio no St Jonh’s Institute of Dermatology of London-Inglaterra, Mestre pela Faculdade de Medicina da USP, possui Título de Especialista em Dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, é professora da Faculdade de Medicina Anhembi Morumbi e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.