21 de maio de 2020
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Como lidar com a ansiedade das crianças com Transtorno do Espectro Autista na quarentena

Neste momento em que somos orientados a ficar em casa como modo de prevenção ao coronavírus, temos passado por inúmeras mudanças em nossa rotina e, para as crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista, essas mudanças tendem a ser sentidas de forma ainda mais intensa, visto que eles a têm como um elemento que […]

Neste momento em que somos orientados a ficar em casa como modo de prevenção ao coronavírus, temos passado por inúmeras mudanças em nossa rotina e, para as crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista, essas mudanças tendem a ser sentidas de forma ainda mais intensa, visto que eles a têm como um elemento que os acalma, os organiza.

Nesta quarentena, alguns têm ficado mais impacientes, irritados e, às vezes, até agressivos, o que causa muitas preocupações entre as famílias. Infelizmente não há uma receita de sucesso para todas as famílias, mas algumas dicas podem ajudar no sentido de diminuir a ansiedade dessas crianças e adolescentes nesta temporada de isolamento.

  1. Usar de previsibilidade: é importante criar uma nova rotina a ser seguida e, se possível, oferecer a essas crianças e adolescentes uma rotina mais próxima possível do que a rotina com a qual eles estavam acostumados, mantendo, por exemplo, o horário de dormir e acordar, os horários de lanches que existem na escola etc.
  2. Utilizar-se de pistas visuais para aqueles com dificuldades relacionadas à linguagem receptiva e expressiva: imprima imagens/dicas ilustrativas que mostrem ações como lavar as mãos, tomar banho, trocar de roupa, comer, esperar, brincar, estudar etc.
  3. Utilizar-se de brincadeiras com técnica: o brincar, além de estreitar laços e proporcionar momentos de diversão em família, ajuda a estimular a criança/o adolescente. É importante pedir para a equipe multidisciplinar passar programas de brincadeiras que possam ser aplicadas de maneira divertida e com técnica dentro de casa.
  4. Conversar e explicar o porquê: as crianças e os adolescentes também querem entender o que está acontecendo e é importante que a família explique tudo de forma clara, fale sobre a importância de estar em casa neste momento, mas sempre com o cuidado de não amedrontá-los. Uma dica é utilizar imagens para isso, mostrando, por exemplo, a rotina de lavar as mãos, de cobrir a boca com o braço ou lenço de papel ao espirrar ou tossir etc. Vale ainda se utilizar de histórias sociais mostrando, por exemplo, que as pessoas às vezes ficam doentes e que precisam se cuidar e descansar quando isso acontece, entre outras maneiras de falar sobre o assunto de forma leve, porém, verdadeira.
  5. Se cuidar emocionalmente: é importante que os pais estejam atentos aos seus próprios sentimentos e se cuidem, trabalhem sua paciência e resiliência, não hesitem em buscar, quando necessário, um acompanhamento online ou presencial, se possível, e em manter o contato com amigos e familiares por meio de telefone ou de chamadas por vídeo. Caso a criança/o adolescente note a angústia dos pais, certamente ficará mais abalada/o.
  6. Manter acompanhamento online para aqueles que não puderam retornar aos atendimentos presenciais: o teleatendimento pode ser muito eficaz para essas crianças e adolescentes.
  7. Estimular a autonomia: este período em casa, com mais tempo disponível, é propício também para estimular o treino de atividades de vida diária e autonomia. Vale chamar a criança/o adolescente para escolher a própria roupa, para ajudar em alguma tarefa doméstica, para organizar o quarto etc.

Por fim, por mais que o momento seja desafiador, minha principal dica é no sentido de encorajar cada família a enxergar e viver o lado positivo de toda esta situação. Que os pais/cuidadores, estando mais em casa, possam viver momentos de qualidade junto a essas crianças ou adolescentes…

É momento de se reinventar, buscar a criança que existe em vocês, usar da criatividade para fazer brincadeiras motivadoras que possam auxiliar no aumento do repertório de habilidades dos seus filhos.  Vale se movimentar, fazer alguma atividade física, cantar, dançar, pintar, recortar e colar, brincar de faz de conta, imitar, fazer atividades pedagógicas, cozinhar juntos (com os devidos cuidados!), ler um livro e pedir para recontar ou terminar a história, entre outras tantas “brincadeiras” que podem ser verdadeiras  terapias!

Poder estar perto dos filhos e observar o desenvolvimento deles de maneira mais próxima, fortalecer vínculos afetivos, aprender mais sobre eles e como auxiliar no tratamento, já traz para a vida de qualquer pai um ganho de valor inestimável!

Dra. Deborah Kerches é neuropediatra (CRM 102717/SP, RQE 23262-1), especialista em Transtorno do Espectro Autista e Saúde Mental Infantojuvenil; autora do e-book “Como explicar o autismo para crianças” (http://dradeborahkerches.com.br/ebook/); coordenadora e professora da pós-graduação Transtorno do Espectro Autista na Adolescência do CBI of Miami; professora da pós-graduação em Psiquiatria Infantil do CBI of Miami; diretora técnica do CAPS infantojuvenil de Piracicaba-SP; Membro da Sociedade Brasileira de Neuropediatria; Membro da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI); Membro da Academia Brasileira de Neurologia e Membro da Associação Francesa La cause des bébés.