20 de setembro de 2020

A luz que existe em nós

Thomas Edison, um menino de oito anos, chega em casa e entrega uma carta que o professor havia lhe dado, dizendo que somente seus pais poderiam abri-la. Sua mãe recebe e lê a carta, Thomas observa que a mãe se emociona com a leitura, e pergunta a ela o que a carta dizia. Sua mãe […]

Thomas Edison, um menino de oito anos, chega em casa e entrega uma carta que o professor havia lhe dado, dizendo que somente seus pais poderiam abri-la. Sua mãe recebe e lê a carta, Thomas observa que a mãe se emociona com a leitura, e pergunta a ela o que a carta dizia. Sua mãe lê o conteúdo: “Prezados pais, seu filho é um gênio. Ele é muito inteligente para esta escola, não temos professores ao seu nível, ensine-o você mesmo.”

Os anos passaram e sua mãe lhe ensinou tudo o que podia, mas um dos seus mais nobres ensinamentos foi: “A maior fraqueza do homem está em desistir”. Thomas era muito curioso, criativo e sonhador. Ele cresceu e se tornou um dos maiores inventores do século XX: foram mais de duas mil invenções, incluindo o fonógrafo, o projetor de cinema, o microfone e a lâmpada elétrica.

​Após muitos anos, quando sua mãe já havia falecido,por acaso Thomas encontrou a carta do professor, e o real conteúdo não era o que a mãe havia lido. A carta dizia: “Seu filho é confuso e não consegue aprender, ele tem problemas mentais. Não vamos deixá-lo vir mais àescola”.

​Esta história exemplifica a capacidade que nós temos de alimentar crenças, e como algumas palavras podem construir ou destruir o futuro das pessoas.

​Quando nascemos, somos impulsionados pelo instinto de desejo, coragem e automotivação. Agarramos os primeiros objetos, engatinhamos e finalmente começamos a dar os primeiros passos. Em todos estes processos, não desistimos até que o objetivo seja atingido. O bebê não alimenta crenças limitantes nesta fase, ele jamais pensa que andar é muito difícil ou que é melhor ficar engatinhando. Mesmo que ele caia, bata a cabeça, depois de alguns minutos ele inicia uma nova tentativa de andar. Entretanto, por volta de dois anos começamos a formar o nosso EU interior: deixamos de ser somente o instinto impulsivo e passamos introjetar na personalidade o que o mundo acredita que somos. E o primeiro mundo introjetado na criança é o mundo dos pais.

​Os pais são capazes de moldar o inconsciente de seus filhos (local da estrutura psíquica que guardamos nossos valores mais importantes). Na primeira infância, que vai aproximadamente até os sete anos, as crianças acreditam que somente os pais sabem quem eles são, mas depois desta idade entram outros personagens como professores, amigos e outros familiares. Assim, os pais sempre serão os personagens mais importantes na formação da estrutura psíquica de uma criança, por isso precisamos estar atentos ao que dizemos.

​Vejamos alguns exemplos de frases tóxicas: “Ele é bonzinho só aqui, em casa é uma peste”, “você não aprende”, “não faz nada direito”, “ele é nervosinho”, “ele é impaciente”. Um agravante são os fechamentos de diagnósticos, como a carta que o professor de Thomas Edison escreveu aos seus pais. Estes exemplos podem destruir o futuro de uma criança, fazendo com que ela se transforme em um adulto com complexos de inferioridade, inseguranças e olhar negativo para si mesmo.

Cada ser é único e jamais deve ser comparado com padrões pré-estabelecidos. Cada criança tem um tempo para se desenvolver, um tipo de inteligência, uma característica física, uma missão única nesta vida.

​O caminho para o fortalecimento emocional dos nossos filhos está em principalmente moldar o inconsciente com palavras positivas. Mesmo quando seu filho estiver dormindo, este fortalecimento tem resultados impressionantes. Precisamos enfatizar aquilo que queremos que ele se torne, fazendo uso de frases como: “você é bondoso e calmo”, “você é criativo”, “você é saudável”, “você é esforçado”, “você é estudioso”, “você é um presente em nossa vida”, “você é amoroso”. Estas são sugestões que transformam uma vida, mesmo que a criança não externalize estas características imediatamente. Com esta atitude, você gradativamente faz com que ela acredite que estes valores existem em seu interior.

​Que possamos ter este olhar para nossos filhos e todos que estão a nossa volta: familiares, alunos ou colegas de trabalho. Que possamos ser luz na vida dos que nos rodeiam, assim como foi a mãe de Thomas Edison na vida dele. Se não fosse por ela, talvez ainda hoje estivéssemos na escuridão.

 

 

Renata Bandel é mãe da Clara (10 anos) e do Pedro (6 anos), psicanalista clínico, com especialização em “Pensamento Criativo” pela Imperial College London e pós-graduanda em Neurociência e Comportamento.